Concepções de mudança no ambiente construído

Publicado
2026-01-06
Palavras-chave: mudança, ambiente construído, evolução, darwinismo, complexidade organizada

    Autores

  • Karl S. Kropf
  • Ana Claudia Cardoso (trad.)

Resumo

Este artigo parte da premissa de que a morfologia urbana e a tipologia de processos[1] utilizam uma série de concepções diferentes, mais ou menos explícitas, quase evolucionárias de mudança. O argumento principal do artigo é que as concepções evolucionárias de mudança usadas nesses campos poderiam ser tornadas mais explícitas, robustas e amplamente aplicáveis se fossem abstraídas e libertadas de períodos e sequências históricas específicas. Em particular, o artigo discute a distinção entre mudança ontogenética[2] e mudanças filogenéticas[3]. O argumento adicional é que, como uma estrutura tautológica (e heurística)[4] das ideias, uma concepção mais abstrata de mudança é análoga às ideias de evolução desenvolvidas em outros campos. O artigo conclui sugerindo que morfologia urbana e tipologia de processos têm tanto a ganhar quanto a perder a partir desse relacionamento homólogo com o pensamento evolutivo das ciências da vida.

 

[1] O artigo menciona principalmente duas escolas morfológicas: a histórico geográfica e tipo-morfológica (muitas vezes também chamada no texto de tipologia de processos). Segundo Ivor Samuels, ambas se dedicaram à investigação sistemática da forma da cidade desde pouco mais de um século, como resistência ou crítica às simplificações introduzidas no campo disciplinar do urbanismo pelo movimento moderno. Apoiaram-se em outras disciplinas como a arqueologia, história e geografia; expressaram-se em várias línguas como o inglês, alemão, francês e italiano, constituindo um corpo de conhecimento baseado em agentes, sistemas de valores, e estratégias de operação europeias. Esta tradução espera iluminar aspectos teóricos que possam favorecer a reflexão sobre a cidade brasileira, que conta com a coexistência de sistemas completamente diversos da europeia, e embora sujeita às narrativas hegemônicas, precisa reconhecer seus processos histórico-culturais para enfrentar as crises contemporâneas, e reconhecer a importância de suas origens indígenas tanto quanto deixar-se ler e explicar a partir de referências europeias.

[2] Mudanças ontogenéticas referem-se às transformações que um ser vivo experimenta ao longo de sua vida, desde a concepção até a maturidade, envolvendo metamorfoses, mudanças de nicho em busca de alimentos e adaptações comportamentais, impulsionadas pela interação entre código genético e ambiente. Refere-se à evolução do indivíduo.

[3] Mudanças filogenéticas referem-se às alterações evolutivas nas relações de parentesco entre espécies ao longo do tempo, reveladas por árvores filogenéticas, que mostram como grupos de organismos divergem de ancestrais comuns, acumulando características novas (mutações) ou perdendo outras. Mudanças filogenéticas envolvem aspectos como divergência e especiação (criação de novas linhagens ou novos nós na árvore filogenética), adaptação (como a perda de características) ou o reconhecimento de grupos filogenéticos, formados por um ancestral e todos os seus descendentes (chamados de clados). A mudança filogenética conta a história de como as espécies mudam e se separam ao longo do tempo, refletindo a árvore da vida.

[4] A estrutura tautológica tem origem na lógica e na retórica e faz proposições verdadeiras por definição. A heurística é um método de descoberta que busca as soluções viáveis de forma eficiente, porém não necessariamente as melhores ou absolutamente verdadeiras para a circunstância.

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Como Citar
S. KROPF, K.; CARDOSO (TRAD.), A. C. Concepções de mudança no ambiente construído. Revista Thésis, Rio de Janeiro, v. 10, n. 20, 2026. DOI: 10.51924/revthesis.2025.v10.597. Disponível em: https://thesis.anparq.org.br/revista-thesis/article/view/597. Acesso em: 8 jan. 2026.