Temporalidades em políticas urbanas
Resumo
O artigo examina as políticas urbanas a partir da temporalidade como categoria estruturante da produção e gestão do espaço urbano. Contrapondo-se à concepção hegemônica do tempo linear no planejamento, propõe compreendê-lo como construção sociopolítica atravessada por ritmos heterogêneos, descontinuidades e relações de poder. A hipótese central sustenta que políticas urbanas operam sob múltiplos regimes temporais provocando rearticulações funcionais e fricções que comprometem sua coerência interna e sua efetividade prática. Epistemologicamente ancorado na crítica do espaço-tempo urbano e na teoria da complexidade, o estudo desenvolve um modelo teórico-analítico organizado em três dimensões — tempo institucional, tempo social e tempo ecológico —, cuja interação configura o que se denomina zona de conflito temporal. Longe de constituir uma anomalia circunstancial, essa zona é estrutural às cidades contemporâneas. Sua origem reside na coexistência de temporalidades dissonantes que, ao interagirem, condicionam os ciclos das ações públicas. Neste sentido, ela condensa alguns traços constitutivos: a assincronia estrutural entre os regimes temporais; uma opacidade decorrente das dificuldades de coordenação multiescalar e da invisibilização seletiva das temporalidades de grupos vulneráveis e de processos naturais; e a disputa de legitimidades nas arenas decisórias. O argumento desenvolvido sugere que para interpretar as políticas urbanas há de se abandonar a busca por sincronização e reconhecer que a pluralidade temporal não é disfunção a corrigir, mas condição constitutiva do urbano. Avançar nessa direção implica desenvolver capacidades de mediação e redes sociotécnicas aptas e a construir respostas mais equitativas e sensíveis à complexidade do urbano.
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