Inteligência artificial e temporalidades do projeto urbano: da linearidade moderna ao crono-urbanismo algorítmico
Resumo
O artigo analisa criticamente a incorporação da inteligência artificial no projeto urbano contemporâneo a partir da noção de temporalidades cruzadas, discutindo como sistemas informacionais e algoritmos reconfiguram o tempo do processo projetivo. Parte-se do entendimento de que a informática, neste contexto, não deve ser compreendida como recurso meramente tecnológico, mas como campo sociotécnico de mediação, simulação e condensação temporal no projeto urbano, ligado às humanidades digitais. Ancorado em autores que problematizam os ritmos urbanos, a aceleração social e a simultaneidade temporal, o estudo argumenta que a inteligência artificial desloca o projeto de um modelo linear e sequencial, característico da modernidade, para um regime iterativo, recursivo e policrônico, aproximando-se do que François Ascher denomina crono-urbanismo. A partir de uma abordagem teórico-conceitual e qualitativa, o artigo articula contribuições da história do tempo, da teoria narrativa e da crítica ao presentismo, evidenciando tanto as potencialidades quanto os riscos da antecipação algorítmica, da compressão do tempo decisório e da automatização das expectativas no planejamento urbano. Conclui-se que a inteligência artificial constitui uma condição contemporânea do projeto urbano, mas questionando o seu sentido sempre positivo, ademais exigindo o reposicionamento crítico do arquiteto e do urbanista como mediadores das temporalidades algorítmicas, em diálogo com os ritmos sociais e urbanos.
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